15.12.16

Opinião do Expert

Custo de Fabricação de Produtos: uma visão diferente daquilo que cria – e destrói – valor em sua empresa…

  • #Gestão e Transformação

Por David Hatchuel, Gerente Sênior na Keyrus Management

O método ABC – (Activity based on costs, ou Custo de Fabricação de Produtos, em tradução livre) – complementa as abordagens contábeis tradicionais empoderando as empresas a analisar os custos a partir do seu processo e atividade.  O modelo ABC torna o custo integral de produtos e serviços compreensível.  Por esta razão, este modelo está se estabelecendo em um número crescente de setores e empresas como uma ferramenta de compreensão detalhada da cadeia de valores, gerenciamento de custos, e para tomar decisões estratégicas e operacionais.

Não há uma verdade absoluta quando se trata de avaliar o custo integral de um bem ou serviço.  A prática atual consiste em justificar os preços de vendas usando como referência valores conseguidos através de procedimentos contábeis.  Entretanto a auditoria da contabilidade é estabelecida de acordo com um “guia de boas práticas” contábeis, ou seja não é confiável.  Colocar muita confiança nesses valores pode, portanto, levar a sérios erros de gerenciamento.  

O que pode ser feito para evitar essas abordagens rígidas que estão escritas na pedra e dar uma visão de custo real?

O método ABC/M (Activity based cost/Management – Custo da Fabricação/Gestão de Produtos) torna possível mudar de uma visão contábil de desempenho para uma visão econômica, centrada na cadeia de valores e no cliente.  Este método se baseia em ver os custos por processo e atividade, rateando-os de maneira multidimensional por: produtos, clientes, e canais de distribuição.  Proporcionando uma visão que engloba a organização, este método suplementa o custo tradicional e a análise de lucratividade e ajuda no processo de decisões estratégicas e operacionais.

Ao adotar ou fazer uso de um modelo ABC padronizado, você evita começar do zero, não deixa nada de fora e, acima de tudo, ainda pode medir seu desempenho em relação a outras empresas.

Uma abordagem que está ganhando terreno

Aproximadamente dez anos atrás, diversos fatores desempenharam um papel muito importante na disseminação e adoção do Método ABC, principalmente:

  • O fato de que os reguladores de certos setores tornaram obrigatório o uso do Modelo ABC para calcular e estabelecer os preços de custo de seus produtos e serviços.  Por exemplo, a estatal francesa EDF precisa apontar os preços de custo de eletricidade de acordo com o modelo ABC imposto pela Commission de Régulation de l’Energie/CRE (Comissão de Regulação de Energia). Da mesma forma que a Autoridade Regulatória Postal e de Comunicações Eletrônicas da França (Autorité de Régulation des Communications Electroniques et des Postes/ARCEP) verifica os custos de produção das operadoras calculados de acordo com o modelo ABC padronizado, pois não há um sistema estadual de regulação.  Em 2010, quando o setor de jogos de azar foi aberto para concorrência, a Autoridade Reguladora de Jogos Online da França exigiu que os jogadores antigos estabelecessem sua atividade de apostas online em contas separadas.  Algumas das operadoras do setor previram que esta exigência iria surgir e conseguiram convertê-la em oportunidade, usando o modelo ABC recomendado pelo órgão regulador para ajudá-los a gerir o desempenho de seus processos, produtos, e canais de distribuição internos.
  • O papel desempenhado por parte de organizações profissionais/setoriais também tem sido decisivo na adoção do Método ABC.  Vários dos departamentos de Sistemas de Inteligência de grandes empresas francesas usam o Cigref[1], análise de custo de TI e modelo de benchmarking.  Este modelo ABC oferece uma classificação de serviços comumente prestados por um Departamento de Sistema de Inteligência e estabelece o elo entre custos e geradores de custo.  Ao vincular os custos a níveis de consumo, torna-se mais fácil refaturar os serviços internamente e, ao padronizar os serviços, possibilita que as empresas comparem seus Custos de TI.  Nesse mesmo espírito, a Association of Finance and Management Controlling Directors [“Associação de Diretores Financeiros e Controladores de Gestão”] (Directeurs Financiers et de Contrôle de Gestion/DFCG) promove um modelo de custos e benchmarking com um repositório cobrindo 16 funções[2] transversais, 220 atividades, e 62 unidades de trabalho.  Ela visa facilitar a definição de SLA[3] e calcular os preços aos quais os serviços prestados às várias entidades organizacionais são faturados.
  • A diversificação de canais de distribuição e o comportamento omnichannel de clientes.  Essas alterações, bem como o aumento de custos indiretos, torna muito mais complicado medir a lucratividade de produtos e clientes.  O método ABC torna possível monitorar de perto o custo integral de um certo produto, levando em consideração os vários custos inerentes em cada canal de distribuição e método.

 

Uma abordagem exigente, porém uma que pode unir a todos

Se cada vez mais empresas estão se voltando para o cálculo de Custo de Fabricação de Produtos, este está certamente voltado para exigências regulatórias, e acima de tudo, para identificar novos incentivos para controlar custos e melhorar a lucratividade.  Esta iniciativa que poderia ser limitada a uma única função, como TI, encontra um novo caminho quando funciona para a empresa como um todo.  Este é o caso da France Télévisions, que, para complementar seu Sistema de gestão, desenvolveu um modelo ABC que lhes possibilita otimizar a alocação de recursos, monitorar os preços de custo de seus programas e gerir o desempenho geral das entidades do grupo.

OBJETIVOS E BENEFÍCIOS DO CUSTO DE PRODUÇÃO DE ATIVIDADES

 

Aprimorar o entendimento dos custos

 

  • Ter uma visão clara do custo integral dos produtos/serviços
  • Mensurar a lucratividade dos clientes, produtos, canais de distribuição
  • Conduzir simulações de lucratividade para novos produtos/serviços
  • Fornecer a órgãos externos justificativas de preços de serviços internos e cálculos de preços de custo
  • Facilitar a condução de benchmarks externos

 

Promover diálogos internos e progresso constante

 

  • Construir um relacionamento mais próximo e mais transparente entre o pessoal de finanças e a equipe operacional
  • Obter respaldo dos gerentes de negócios para um método objetivo para alocar custos indiretos
  • Fornecer uma supervisão orçamentária apropriada à equipe operacional

 

Gerenciar o desempenho geral

 

  • Otimizar a alocação de recursos
  • Identificar os alavancadores operacionais para reduzir os gastos
  • Gerenciar custos unitários de TI associando-os a indicadores de desempenho
  • Guiar escolhas estratégicas: investimentos, otimização de carteira de produtos, abandono ou terceirização de atividades…

Na verdade, um dos principais benefícios de um projeto de custos de fabricação de um produto é que ele cria estímulo e divide os silos organizacionais, trazendo o pessoal de finanças e a equipe operacional juntos em torno da mesa.  Isto é essencial se quisermos desenvolver repositórios apropriados e regras de partilha que sejam entendidas e aceitas por todas as partes envolvidas.  Unir várias partes interessadas em torno de um modelo em comum permite que cada uma delas entenda melhor seus custos e lucratividade e gerencie sua própria atividade de maneira mais eficaz.  Desta maneira, o diretor de marketing pode se basear neste modelo para ajustar sua estratégia de preços.  Da mesma forma, um diretor de vendas pode identificar novos critérios de compromissos para equilibrar sua carteira de clientes.

Criando condições para seu projeto ser bem sucedido

O método ABC/M está cada vez mais bem conhecido e seus benefícios mais amplamente reconhecidos.  Sua lógica interfuncional, entretanto, colide com o raciocínio organizacional de departamentos individuais e entidades jurídicas que continua a prevalecer na maioria das empresas, bem como em seu gerenciamento de ferramentas principais (ERP, emissão de relatórios…).  Conciliar estas duas maneiras de pensar e entender que elas podem se complementar umas às outras é uma questão central em qualquer projeto para implementar um modelo ABC.  Para garantir um desfecho favorável do projeto e o sucesso duradouro da iniciativa, são necessários diversos fatores:

  • Endosso sólido por parte da administração e o estabelecimento de uma equipe de projetos multidisciplinar.  Se o projeto de custos for um projeto da empresa, é essencial que o CEO o apoie a partir do momento em que for lançado e enquanto estiver em andamento.  A composição multidisciplinar da equipe do projeto, trazendo juntos os controladores de gestão e gestores de negócios, garante que nenhum aspecto ou processo será deixado de fora da concepção do modelo e das regras de gerenciamento.
  • A devida consideração das informações sobre alterações de gestão logo no início do projeto é também essencial, de maneira a explicar aos envolvidos as finalidades do projeto, seus estágios, quais serão os elementos produzidos, e quais resultados são esperados.  A fase de concepção é o momento para a equipe operacional fazer sua contribuição, entender o que o ABC pode lhes proporcionar, e tomar suas próprias iniciativas.  Se por um lado é importante abrir esta fase a muitas pessoas, por outro lado é aconselhável restringi-la a um período de curta duração.  É melhor construir um modelo inicial, testá-lo, e desenvolvê-lo com base nos resultados obtidos, do que tentar construir um modelo "perfeito" já logo na primeira tentativa. 
  • A escolha de uma solução de aplicativo que seja flexível, ajustável e integrada.  10 ou 15 anos atrás, as empresas tendiam a posicionar o custo dentro da própria contabilidade ERP, o que era complicado, oneroso, e, ao final do dia, frequentemente frustrante.  Pelos últimos 10 anos, os editores têm colocado no mercado ferramentas dedicadas ao orçamento e que são muito mais eficientes em termos de tempo de cálculo e de gerenciamento de grandes volumes e repositórios.  Elas chegam em forma de aplicativo pronto que, como um suplemento ao ERP, oferece rastreabilidade de custos e possibilita que eles sejam analisados em detalhes, ao mesmo tempo em que permanecem conectados ao sistema contábil.  A capacidade de modelização dessas novas ferramentas, o fato de que elas são fáceis de confrontar, e sua flexibilidade são vantagens significativas em termos de desenvolver o modelo e garantir o sucesso da iniciativa ao longo do tempo.

O método ABC lhe força a mudar sua percepção, dar um passo para trás, e trabalhar em repositórios sincronizados e compartilhados.Isto exige rigor na comunicação de cifras, mas fornece alavancas baseadas em fatos para aprimorar o gerenciamento diário de operações e desempenho.

Finalmente, se por um lado o custo é inegavelmente uma poderosa ferramenta de suporte à decisão, este será o caso apenas se o modelo for definido em relação ao desafio que se visa encarar.  Você não constrói o mesmo modelo para atender a desafios de simulação que construiria para fornecer relatórios de regulamentação ou habilitar coordenação operacional, ou calcular a lucratividade de novos produtos.  É essencial, portanto, dedicar tempo para esclarecer o principal objetivo, bem como a granularidade e profundidade dos elementos desejados.  É melhor construir vários modelos de custo do que buscar o modelo universal: ele não existe.

SOBRE O AUTOR

David Hatchuel é Gerente Sênior da Keyrus Management.  Detentor de diplomas de pós-graduação em Finanças pela Dauphine University e em Contabilidade, tem 18 anos de experiência tanto como controlador de gestão operacional em um grupo industrial, quanto como consultor em grandes empresas.  Oferece assistência na transformação de departamentos financeiros, trabalhando em seus projetos para desenvolver sistemas de informações, aprimorar a eficácia de funções financeiras e gerir desempenho.

SOBRE A KEYRUS MANAGEMENT

Keyrus Management é a Empresa de Consultoria incorporada dentro do Keyrus Group, que combina conhecimento técnico em negócios com conhecimento tecnológico técnico especializado em gerenciamento de dados.

A complementaridade desses dois aspectos fornece uma vantagem em termos de valor, e proporciona à Keyrus Management um posicionamento único no cenário de consultoria.

A Keyrus Management ajuda as empresas de todos os tamanhos, sejam elas de Grandes Contas ou empresas de pequeno ou médio portes, a atingir suas necessidades crescentes de rápida transformação desenvolvendo sua agilidade e acelerando o uso de dispositivos digitais.

A empresa está desenvolvendo suas atividades na França e internacionalmente, apoiada pelo Keyrus Group, especialista em Dados e Dispositivos Digitais presente em aproximadamente 15 países em 4 continentes.

[1]  Cigref é uma rede cuja missão é “desenvolver a capacidade de grandes empresas para integrar e dominar o mundo digital”.  Reúne mais de 130 grandes empresas francesas e organizações em todos os setores empresariais (bancário, seguros, energia, distribuição, indústria, serviços...).

[2] Gestão Geral, Finanças, Contabilidade, Gestão de Controle, Recursos Humanos, Compras, Aquisições, Jurídico, Sistemas de Informações, Titularidade sobre Projetos, Qualidade, Recursos em Geral, Marketing, Vendas, Relacionamento com Clientes, CSR.

[3] Contrato de Nível de Serviço: agreement/commitment on service level.

 

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