22.12.16

Opinião do Expert

Blockchain, o propulsor da economia colaborativa

    Da persistência da informação à confiança digital

    Tendo surgido em 2008 com o Bitcoin, a tecnologia Blockchain promete revolucionar as práticas digitais criando a relação de confiança sobre a qual todas as transações eletrônicas devem se basear a partir de agora.  Podemos ter certeza de que o estabelecimento dessa confiança melhora a experiência do usuário e cria valor dentro das infraestruturas algorítmicas.  Quanto mais complexos os sistemas se tornam, mais essa confiança por parte do usuário pode ser vista como um pré-requisito para qualquer adoção de inovação.  O Blockchain deve permitir espalhar a confiança exatamente onde se espera, e fazê-lo de maneira muito natural.

     

     

    Com essa tecnologia inovadora, os próprios conceitos de resiliência, confiabilidade e segurança estão sendo revistos, com base em elevada redundância de informações, sua distribuição e continuidade de serviços.  Nenhuma outra arquitetura oferece tanta resistência a ataques como a do Blockchain.  Na verdade, estamos testemunhando uma “revolução” na forma como os dados digitais são transmitidos e atualizados, ao mesmo tempo em que são certificados.

    Como banco de dados distribuído (BDD), o Blockchain permanece acessível a todos sem qualquer controle central.  Seu método de funcionamento é o de um grande livro de contabilidade descentralizado, em que todos os balanços contábeis dos usuários são registrados, e que é atualizado pela própria rede sem qualquer intervenção por parte de um órgão central.  A força desse sistema reside em seu modo de governança altamente disperso, com a verificação coletiva deste banco de dados de transações empreendida por todos aqueles que são capazes de fornecer potência computacional (mineração).  Todas as transações realizadas entre os usuários do Blockchain desde sua criação podem ser consultadas, porém são invioláveis.  A ausência de um intermediário significa que os custos de infraestrutura são eliminados.  A segurança do set-up reside no grande número de “nós” que compõem a cadeia e garantem um elevado nível de redundância das informações armazenadas.  Teoricamente, para hackear um Blockchain, você teria que assumir o controle de pelo menos metade dos nós e mineradores do sistema inteiro e ser equipado com um poder computacional colossal para produzir o ataque.  Tal operação permanece claramente fora de possibilidade, com base nas atuais capacidades digitais.

    Rumo à desintermediação e à holacracia digital

    Ao fornecer segurança e desintermediação, o Blockchain está abrindo oportunidades inteiramente novas em termos de arquiteturas descentralizadas.  É impressionante ver a extensão de sua gama de aplicações no setor bancário, de finanças, seguros, imobiliário, educação, saúde, profissões jurídicas e administração, em sentido mais amplo.  Desde a regulamentação e distribuição de obras de arte até a luta contra o download ilegal ou falsificação; desde o compartilhamento de um arquivo médico até seu arquivamento, as possibilidades oferecidas pelo Blockchain são altamente variadas.  Eles sempre atendem a uma expectativa ou uma lacuna estrutural do usuário.  Um exemplo frequentemente citado do uso do Blockchain é o desenvolvimento de um registro de propriedade digital (cadastro) em certos países africanos que ainda não os possuem.  Esse exemplo pode ser visto como uma das melhores aplicações dessa tecnologia, servindo à modernização de um Estado.

    A arquitetura Blockchain permanece adaptável a qualquer contexto que requeira trocas de dados que sejam seguras, porém, não disponha de um componente de supervisão centralizado.  Tudo o que você tem de fazer é adaptar o subprograma que implementa o protocolo para validar os lançamentos dentro do sistema de gerenciamento Blockchain.  O poder do conceito Blockchain vai muito além da esfera meramente técnica: ele oferece uma alternativa confiável e inédita a todos os protocolos para organização e transmissão de informações que, até agora, eram baseadas em formas de lógica piramidais.  O Blockchain põe em prática o princípio da inteligência coletiva disseminando os mecanismos de tomada de decisão ao longo de uma rede de participantes.  Como tal, seu sistema para organizar a governança é o de uma holacracia [Holacracia é uma tecnologia social ou um sistema de governança organizacional onde a autoridade e a tomada de decisão é distribuída a uma holarquia de grupo auto-organizados, abrindo mão, assim, da corrente hierarquia vigente], que favorece colaborações descentralizadas.  Dito isto, o potencial para um sistema baseado em Blockchain de promover mudanças à sociedade continua dependendo bastante de ele ser instalado em uma rede aberta peer-to-peer.

    Os procedimentos para governança desta rede e a maneira como é instalada (rede aberta ou fechada, número de nós, identidade de seus operadores) são cruciais para suas capacidades futuras.  Em uma rede aberta peer-to-peer, quanto maior o número de operadores independentes espalhados sobre todos os continentes, mais as regras sobre as quais os usuários baseiam sua confiança serão respeitadas.  A confiança nasce do sistema em razão do número de nós que possui, assim como de sua independência, a motivação de seus usuários e a natureza aberta da rede.  Esse mecanismo de confiança difere inteiramente daquele que funciona em um sistema tradicional, gerenciado por uma única empresa ou consórcio dedicado.

    Blockchain, o futuro propulsor da economia colaborativa

    Obviamente, a implantação generalizada de arquiteturas Blockchain deverá conduzir à extinção de todas as plataformas centralizadas nascidas da disintermediação/re-intermediação (das quais o Uber e a Airbnb permanecem como protótipos).  O Blockchain, portanto, contribuiria para remover o último intermediário – o supervisor das transações que separam os usuários.

    É também possível que este cenário assintótico jamais se concretize, se os dois sistemas conseguirem alcançar um equilíbrio razoável entre si ou coexistirem bem um com o outro.  A plataforma colaborativa israelense La'Zooz (“viajar por aí” em hebraico – lazooz.org) utiliza tecnologia de mineração baseada em localização e viagem para gerar cupons Zooz e distribuí-los aos membros da comunidade.  Esse aplicativo de transporte urbano do Blockchain tem por objetivo resolver o compartilhamento de automóveis em tempo real, maximizando a taxa de ocupação dos veículos presentes nas estradas.  Ele permite que os motoristas determinem suas tarifas e faz deles acionistas na plataforma descentralizada.  

    Arcade City é um projeto similar lançado em 2015 que procura liberar os motoristas da determinação unilateral de preços.  Construído nas bases de uma arquitetura Blockchain, o Arcade City vai contra o modelo Uber.  Certamente é o setor bancário que passará pela maior ruptura nos próximos anos.

    As principais instituições bancárias estão plenamente conscientes disso e estão trabalhando no sentido de integrar positivamente o Blockchain em suas melhores práticas.  Dito isto, outros setores podem mostrar-se mais bem dispostos a adotar a cultura Blockchain.  As empresas que se recusarem a considerar este novo potencial correm um risco real de ver uma estrutura concorrente totalmente horizontal e distribuída se levantar e, de repente, engolir todo o mercado...

    A guerra das plataformas colaborativas começou.  Ela pode ser implacável para aqueles que descansam em seus louros e são tentados a subestimar o poder do movimento.  As possibilidades abertas pelo Blockchain parecem ilimitadas.  Vamos usar sua arquitetura para construir as bases de uma economia colaborativa exponencial!

     

    Eric Cohen

    Fundador e CEO

    Download PDF (em inglês)