15.10.15

Opinião do Expert

Receitas para inovação: Alavancas de transformação e oportunidade

  • #Experiência Digital

Num momento em que a digitalização e a inovação estão no cerne das questões que as empresas enfrentam, qualquer que seja a seu tamanho ou setor de atividade, 

elas devem antecipar questões e adotar uma atitude que seja ágil, decididamente inovadora e empreendedora. Só assim elas serão capazes de garantir o seu futuro e competir em pé de igualdade com o GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon) e os apreciadores do Uber, através da criação de serviços de alta utilização de valor agregado que os clientes querem e que os permitirá a encontrarem seu nicho nesses novos ecossistemas.

Antes de considerar transformar a empresa através da inovação, duas questões estratégicas surgem:

  • Quais São as novas alavancas de transformação e as oportunidades de negócio associadas?
  • Como deveria ser o posicionamento da própria empresa frente a essas drásticas mudanças nos ecossistemas industriais?

O exemplo escolhido abaixo para ilustrar esse tema vem do setor automotivo, fabricantes de automóveis e seus veículos conectados estão entre os pioneiros da transformação 3.0. Este exemplo pode ser aplicado a qualquer outro setor.

1. NOVOS NÍVEIS DE TRANSFORMAÇÃO E OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS ASSOCIADAS

A Conectividade vem trazendo as principais alavancas de transformação, notalvemente graças ao desenvolvimento acelerado da Internet das Coisas. No setor automotivo, essas alavancas assumem várias formas:

  • A capacidade de comunicação em tempo real com o motorista, mas também com outros carros e infra-estrutura ambiente. Por exemplo, a Continental tem um veículo de demonstração com câmeras que lêem as imagens de sinais de trânsito para que em seguida sejam cruzadas com dados de GPS e reforçando a função de mapeamento, com base no sistema HERE da Nokia. Outro de seus "demo-carros" pode se comunicar continuamente com estações meteorológicas, o cruzamento desses dados são realizados através de níveis de umidade medidos na estrada e sensores no pára-brisa que captam a chuva e luz. Essa informação, em seguida, permite que a velocidade ou a direção do veículo sejam ajustados conforme a necessidade.
  • Dados que são exponencial volumétricos, relativos ao geoposicionamento, tráfego rodoviário, informação ambiental, o estado de funcionamento do carro, o comportamento de condução e mais globalmente todas as interações entre o motorista e seu veículo. Por exemplo, IBM e PSA Peugeot Citroën acordaram recentemente numa extensão de 7 anos de sua parceria visando o desenvolvimento de serviços relacionados a veículos, com o intuito de melhorar a manutenção preventiva dos carros e gestão do tráfego.
  • Acesso no carro para serviços externos, como assistente pessoal. Por exemplo, o serviço OnStar da General Motors, que começou nos Estados Unidos em 1996, quando a era digital estava em sua infância, hoje gera cerca de 100.000 chamadas por mês. Outro serviço seria organizar encomendas no porta-malas de seu carro. Com um experimento já realizado com a Volvo, a Amazon anunciou que está atualmente a realizar testes com o objetivo de entregar encomendas dos seus clientes diretamente para o porta-malas de seu carro. O grupo norte-americano é um parceiro da DHL e está a limitar seus testes para clientes que vivem na região de Munique da Alemanha, assinantes do serviço Amazon Prime e têm um Audi.

Essas alavancas de transformação geram múltiplas oportunidades. Em nosso exemplo de fabricantes de automóveis, elas consistem principalmente de:

  • Manter a qualidade do veículo de forma mais eficaz e reduzir os custos associados, graças nomeadamente a:
    • Monitorização contínua, porque ao ser informado em tempo real da quilometragem de um carro, o fabricante pode usar esses dados para garantir que os condutores têm seus automóveis atendidos quando deveriam.
    • Prevenção de problemas, porque através da análise do histórico de dados de condução de um carro é possível realizar manutenção "preditiva" e identificar os indicadores de avarias e situações críticas antes do tempo.
  • Melhorando significativamente a experiência de pós-venda e fidelização à rede.
    • Um carro conectado será capaz de executar o seu próprio check-up, alertar o condutor quando a próxima revisão será necessária, colocá-lo em contato com sua garagem contato e marcar uma consulta, no momento mais conveniente. Ele vai até mesmo ser capaz de enviar a oficina um diagnóstico prévio que irá tornar mais fácil lidar com o carro quando o motorista leva-lo para a concessionária.
  • A criação de novas fontes de receita para o fabricante, como por exemplo:
    • A venda de dados, tendo em conta que o fabricante poderia vender os dados dos seus veículos para setores de outras indústrias, tais como, por exemplo, contratos de seguradoras "pay-as-you-drive" e "pay-how-you- drive” ou para autoridades locais que utilizariam dos dados para previsão de tráfego.
    • Novos serviços B2C, porque um veículo conectado será capaz de otimizar sua jornada e cada um dos pontos de interesse que você vai encontrar ao longo do caminho. Por exemplo, quando você se aproxima de sua casa, o veículo será capaz de aconselhá-lo sobre o melhor lugar para estacionar, lidar com o pagamento do estacionamento, e, em seguida, recordar-lhe de lugares próximos que possam ser de seu interesse (lojas , lugares públicos, ...).
    • Novos Serviços B2B destinados a gestores de frotas de veículos. Por exemplo, o serviço "Peugeot Connect Fleet Mgt", que ajuda os gestores a otimizar o "Custo Total de Propriedade" (TCO) das suas frotas de veículos, utilizando dados de consumo, informações sobre horas de uso, manutenção preventiva, alertas mecânicos e detalhes de níveis de combustível. Este serviço também incentiva a condução ecológica, analisando e comparando os estilos de condução de diferentes motoristas em uma frota, a fim de oferecer aconselhamento individual a cada condutor. Finalmente, indica a localização de veículos da frota em tempo real, tornando-se possível identificar um veículo que está perto de um ponto estratégico e exibir rotas de viagem.

2 - ECOSSISTEMA E POSICIONAMENTO

Uma vez que a empresa tenha decidido qual a oportunidade de negócio a ser perseguida, ela deve desenvolver o ecossistema adequado e adotar um posicionamento claro.

Para um fabricante de automóveis, dois papéis principais estão abertos a ele:

  • Produtor de dados: aqui, o fabricante muda o foco na melhoria da qualidade dos veículos e em vender os dados provenientes deles.
    • Esse é o papel que parece ser o mais natural para um fabricante de automóveis como para qualquer operador móvel, uma vez que, na sua posição de empresas de aluguel, locatários ou "carro-compartilhados", eles estão na origem dos dados.
    • As prerrogativas de um "produtor de dados" são de coletar dados de veículos, certificá-los e torná-los disponíveis (por exemplo, gestão API) para seu próprio uso ou utilização por terceiros.
    • Desenvolvendo o ecossistema necessário será muito mais fácil para um fabricante já que o ambiente é natural para ele.
  • Agregador de serviços: aqui, o fabricante propõe novos serviços B2C ou B2B em seu nome e melhora significativamente a experiência do cliente - no que diz respeito aos serviços de pós-venda, por exemplo.
    • Um agregador de serviços integra todos os serviços que já existem e complementa a sua oferta, a fim de torná-lo em uma nova, única, homogênea e fluída experiência para o cliente com valor de uso elevado. Assim, no exemplo onde o carro identifica um problema em potencial, o agregador de serviços deve integrar, em tempo real, um fluxo contínuo: um serviço de auto-diagnóstico, um diálogo com o motorista para avisá-lo, e, em seguida, a organização e coordenação  da visita a oficina. O veículo pode, então, enviar um auto-diagnóstico para a oficina para que os mecânicos recebam antecipadamente as informações que precisam para preparar o trabalho que será realizando na oficina.
    • Para o serviço de pós-venda, o fabricante pode desenvolver o ecossistema certo em bases sólidas, uma vez que já tem relações com a sua rede e pós-venda s de suas oficinas. Além disso, esta nova posição como agregador poderia colocá-lo de volta "no coração" do relacionamento com o cliente, deslocando-se a partir de uma relação de "motorista <> oficina <> fabricante" para uma relação de "motorista <> fabricante <> oficina" .

Uma empresa de qualquer outro setor do que automotivo poderá muito provavelmente se beneficiar das mesmas alavancas de transformação (capacidade de diálogo em tempo real,  volume exponencial dos dados, capacidade de recorrer aos serviços realizados remotamente) e identificar novas oportunidades de negócios. As unidades em crescimento terão, assim, de encontrar um ecossistema e um posicionamento que, sem dúvida, será novo para a empresa.

Da mesma forma, pode ser necessário enfrentar novos desafios tecnológicos e desenvolver a organização através da criação de novos departamentos e / ou unidades de negócios. Um outro artigo “opinião de especialista” relacionado a essa tema  será  publicado com o título "Receitas para a inovação: desafios tecnológicos e organizacionais".

Por Serge Darles, Diretor de Tecnologia Empresarial e Inovação, Grupo Keyrus.